2 de janeiro de 2006

Porque os projetos open-source não são anunciados na mídia?

Uma das minhas paixões e lutas constantes é pelo uso de software livre (SL) em todo o universo. Acredito piamente que o uso de SL poderá trazer inúmeros benefícios para a sociedade não só pelo seu aspecto libertário como também pelo aspecto educacional.

Em Novembro de 2005, participei da II Seminário Nacional de Tecnologia da Informação e da Comunicação na Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio de Janeiro. É um evento voltado para a governança em TI e sobre estratégias do uso de TI nas empresas.

O evento foi de altíssimo nível e contou com a participação de altos executivos e gerentes de TIs do governo e do meio acadêmico e os palestrantes foram em sua grande maioria muito bons.

Uma das palestras que não pude perder foi sobre "Decisão Estratégica: Windows x Linux". Foram 4 palestrantes: o Coronel Carlos Gil do Exército Brasileiro, Ulisses Pena do Banco do Brasil, José Borba Soares do Ministério do Planejamento e o Prof. e advogado Carlos Pereira da FGV.

Fiquem impressionado com as metas e projetos baseados em software livre que estão sendo feitas nas três entidades, principalmente no Banco do Brasil. O projeto do Exército é bem ambicioso, pois pretende estar rodando apenas software livre em até 95% de suas instalações. O Coronel Gil foi brilhante na sua explanação e se mostrou conhecedor da questão entre software livre e proprietário. Foi muito bem ao conseguir habilmente dar a palestra sem citar o nome de nenhuma empresa - só se referia a uma determinada empresa como "a monopolista" :)

O Banco do Brasil também impressionou: já iniciou a substituição de todos terminais de atendimento para Linux e sua meta e expurgar o MS-Office de todas as estações, mesmo as que permanecerem com Windows. O que mais me impressionou na palestra do BB foi a preocupação que eles tem em contribuir com código e documentação para a comunidade. Eles contribuem com o Squid e com o Help do OpenOffice!

Ficou claro que a direção de TI do BB entendeu muito bem que a maior força do SL está na participação dos usuários na contribuição e não apenas no uso. Quando a empresa ou indivíduo entra com a mentalidade apenas de usar e abusar do SL sem dar contribuições financeiras, em código ou em documentação, segue o mesmo raciocínio que o Tio Bill, buscando o máximo de lucro, oferecendo o mínimo possível para a comunidade.

O advogado e professor da FGV também foi muito bom, fez uma explanação simples e clara dos aspectos jurídicos do uso de SL e disponibilizou a apresentação com a licença CC (Creative Common)!

Entretanto, o que me chamou a atenção mesmo foi: porque esses projetos não estão aparecendo na grande mídia de TI tupiniquim? Porque a InfoExame, por exemplo, dá mais valor a troca do diretor de TI da empresa X e Y, dá a notícia desses utilitários sem expressão mas não mostra iniciativas como essas?? Coisas da Editora Abril...

Nessa mesma semana, me deparei com um artigo muito bom da ZdNet que acho que responde a minha questão. Eles explicam que a Microsoft e outras empresas afins estão fazendo muita pressão com as empresas que visam o software livre e fazem de tudo para acabar com o projeto em andamento, até mesmo procurando descobrir quem é o mentor do projeto e tentar demití-lo!!!

Quem quiser dar uma olhada no artigo, veja em:

Why open source projects are not publicised

Eles estão jogando pesado por exemplo com o Dept. de TI de Boston (que buscava apenas softwares com padrão aberto) e finalmente esta semana o diretor foi exonerado após uma campanha difamatória feita pelo Boston Globe.

Da mesma forma, a prefeitura de Munique, que está substituindo todas as estações pela distribuição Linux Debian, está sofrendo ataques constantes da mídia que só começou a divulgar o projeto quando ele atrasou...

Aqui no Brasil, o jogo já está pesado também: um amigo bem chegado me testemunhou que sofreu ameaças de uma multinacional do ramo de ferramentas de desenvolvimento por ele estar falando bem do software livre em listas de discussões. Enviaram uma notificação para a empresa dele, dizendo que ele estava usando software pirata!! E o pior é que a empresa dele nem computador tem e na casa dele só roda Linux!!! Ele prometeu que irá usar o dinheiro da ação cívil que ganhará na justiça contra a empresa para doar a projetos de software livre.

Outro caso interessante foi citado pelo Clóvis, um colega do site VivaoLinux. Disse que, em novembro de 2005, houve também o lançamento do Mandriva 2006 em um hotel proximo a região da Av. Paulista e a presença da imprensa foi nula. Nenhuma nota na Folha de São Paulo ou em nenhum outra publicação especializada. Lá estavam o gerente de TI das Casas Bahia (onde 100% do sistema é linux), o responsavel pela Conectiva no Brasil, uns dos cabeças da Mandriva da França, um representante da HP se não me engano da California, entre outros muitos empresários e gerentes de TI de grandes empresas...

Enfim, o objetivo do post foi divulgar os inúmeros projetos que o governo está realizando com software livre e convocar a todos que divulguem seus casos de sucesso para que os empresários se sintam motivados em experimentar o software livre.

Saúde e Liberdade e até a próxima!
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